Texto: 1999-2017 © Luís Carvalho Barreira
[1] O Cristianismo fará coincidir esta data com a do nascimento de Cristo e por sua vez a comemoração do Natal.
[2] Em 494 d.C., o Papa Gelásio I proibiu e condenou oficialmente essa festa pagã. Numa tentativa de cristianizá-la, substituiu-a pelo 14 de fevereiro, dia dedicado a São Valentim.
[3] Fevereiro tem origem etimológica em Fébrua.
[4] Deus dos bosques, dos campos, dos rebanhos e dos pastores. Pã é representado com orelhas, chifres e pernas de bode; amante da música e traz sempre consigo uma flauta, a flauta de Pã.
Saturnália e Lupercália — o corpo em festa
As festas religiosas ocupavam um lugar central na vida da civilização romana. O calendário era pontuado por celebrações, sacrifícios, procissões, jogos, banquetes e cerimónias que estabeleciam uma relação permanente entre a vida quotidiana e o mundo dos deuses.
Entre essas festividades, a Saturnália, dedicada a Saturno, adquiria uma dimensão particularmente popular. Celebrada em Dezembro, depois do encerramento do ciclo agrícola, constituía um momento excepcional de alegria, abundância e permissividade. Durante estes dias, algumas das regras que estruturavam a sociedade romana eram temporariamente suspensas e os participantes entregavam-se ao banquete, à brincadeira, à troca de presentes e à convivialidade.
A característica mais extraordinária da Saturnália encontrava-se precisamente na inversão temporária da ordem social.
Os escravos podiam participar no banquete em condições excepcionais, podiam falar com maior liberdade e, em alguns contextos, os seus senhores desempenhavam simbolicamente funções que lhes pertenciam habitualmente. Os jogos, as máscaras, a liberdade da linguagem e a inversão dos papéis sociais criavam um espaço ritual no qual a sociedade podia, por alguns dias, experimentar o seu próprio contrário.
Não se tratava, naturalmente, da abolição efectiva da escravatura ou das diferenças sociais. Tratava-se de uma suspensão ritual da ordem.
E é precisamente essa suspensão que torna a Saturnália particularmente importante para uma reflexão sobre o corpo.
O corpo que durante todo o ano obedece às regras da sociedade torna-se, durante a festa, um corpo libertado.
Come-se.
Bebe-se.
Canta-se.
Brinca-se.
Dança-se.
Trocam-se presentes.
Exagera-se.
O corpo quotidiano transforma-se num corpo festivo.
A festa funciona, assim, como uma espécie de válvula de escape colectiva. Aquilo que a sociedade normalmente contém — o desejo, o excesso, o riso, a agressividade, a sexualidade, a inversão da autoridade — encontra no ritual um espaço temporário de manifestação.
A Saturnália assinalava também o encerramento simbólico de um ciclo agrícola. Depois da colheita, a comunidade podia celebrar aquilo que havia sido conseguido e, simultaneamente, confrontar o período de espera que antecedia o novo ciclo.
A terra repousa.
A semente ainda não foi lançada.
O futuro permanece oculto.
Entre a abundância do ano que termina e a incerteza do ano que há-de começar, instala-se um intervalo.
É nesse intervalo que a festa acontece.
A festa situa-se, portanto, entre dois tempos: entre o passado e o futuro, entre a ordem e a desordem, entre a contenção e o excesso.
O homem festeja porque sabe que o ciclo vai recomeçar.
Mas festeja também porque sabe que o futuro é incerto.
A Lupercália — o corpo purificado
Pouco depois, em Fevereiro, outro ritual importante ocupava o calendário romano: a Lupercália, celebrada a 15 de Fevereiro.
A festa estava associada à purificação e à fecundidade e decorria em torno do Lupercal, lugar tradicionalmente relacionado com a loba que, segundo a lenda, amamentou Rómulo e Remo.
Os Luperci, sacerdotes associados ao ritual, sacrificavam animais e utilizavam as suas peles para produzir tiras que eram transportadas durante a procissão. Segundo as descrições antigas, essas tiras eram usadas para tocar ou chicotear os participantes, particularmente as mulheres, num ritual associado à fertilidade.
Aqui o corpo deixa definitivamente de ser espectador.
O corpo participa.
É tocado.
É perseguido.
É atingido.
É purificado.
É fecundado simbolicamente.
A festa introduz uma dimensão física que ultrapassa a contemplação religiosa. O sagrado não acontece apenas perante o corpo; acontece através do corpo.
A pele do animal sacrificado passa para o corpo humano.
O sangue participa do ritual.
A corrida transforma a cidade.
O toque estabelece uma relação entre os participantes.
A sexualidade, a fertilidade e a purificação aproximam-se num mesmo espaço ritual.
Encontramos novamente uma estrutura que atravessa este nosso percurso: a matéria natural transforma-se em símbolo através do corpo humano.
A pele do animal deixa de ser apenas pele.
A tira de couro deixa de ser apenas objecto.
O golpe deixa de ser apenas violência.
O corpo deixa de ser apenas corpo.
Tudo é convertido em linguagem ritual.
É neste ponto que podemos reconhecer novamente o corpo poiético: o corpo como matéria através da qual a comunidade produz significado.
Do corpo quotidiano ao corpo carnavalesco
A importância destes rituais não reside apenas na sua dimensão religiosa. Eles revelam uma característica profundamente humana: a necessidade de criar momentos em que a ordem quotidiana possa ser temporariamente invertida.
A sociedade estabelece regras.
A festa suspende-as.
A sociedade separa os indivíduos.
A festa aproxima-os.
A sociedade disciplina o corpo.
A festa liberta-o.
A sociedade distingue senhor e escravo, homem e mulher, autoridade e subordinado.
A festa pode, durante um breve período, colocar essas posições em tensão.
É neste sentido que a festa possui uma dimensão catártica.
O indivíduo não elimina os seus medos através da razão; pode também exorcizá-los através do ritual, do riso, do excesso e da participação colectiva.
A máscara é particularmente significativa neste processo.
Quando o indivíduo se mascara, deixa temporariamente de ser apenas ele próprio. Assume outra identidade. Permite-se comportamentos que, fora daquele espaço ritual, seriam censurados.
O corpo transforma-se em personagem.
E a personagem permite ao corpo libertar-se.
É esta estrutura que encontraremos, séculos mais tarde, em diferentes manifestações carnavalescas europeias.
Não podemos afirmar, de forma simples, que o Carnaval descende da Saturnália ou da Lupercália. Entre a Antiguidade romana e as formas medievais e modernas do Carnaval existem profundas transformações históricas, religiosas e sociais.
Mas podemos reconhecer entre elas uma afinidade estrutural.
A suspensão temporária da ordem.
A inversão dos papéis.
O excesso.
A máscara.
O riso.
A transgressão.
A sexualidade.
A comida.
A bebida.
A multidão.
E, sobretudo, a transformação do corpo individual num corpo colectivo em festa.
A festa como corpo poiético
Se o corpo poiético é o corpo capaz de produzir e transformar significado, a festa constitui uma das suas manifestações mais antigas.
O corpo que dança produz espaço.
O corpo que canta produz comunidade.
O corpo mascarado produz uma nova identidade.
O corpo que participa no ritual transforma o tempo.
O corpo que toca e é tocado estabelece uma relação com o outro.
A festa é, por isso, uma verdadeira obra colectiva do corpo.
Não é uma obra que se contempla à distância.
É uma obra que se vive.
E talvez seja esta a diferença fundamental entre a representação artística do corpo e a experiência ritual do corpo: na arte, podemos representar o corpo; no ritual, o próprio corpo torna-se representação.
Saturnália, Lupercália e, mais tarde, as múltiplas formas de Carnaval podem ser compreendidas dentro desta longa história da transformação ritual do corpo.
O homem cria a festa porque precisa de interromper o tempo quotidiano.
Precisa de rir da autoridade.
Precisa de tocar o outro.
Precisa de ultrapassar, ainda que temporariamente, os limites que ele próprio construiu.
E precisa, finalmente, de regressar à ordem.
Porque a festa só existe verdadeiramente porque há uma ordem para transgredir.
O corpo quotidiano obedece.
O corpo festivo transgride.
O corpo ritual transforma.
E o corpo poiético cria significado.
