Ouro sobre azul

Madonna della Catena di San Silvestro al QuirinaleSéculo XIII

Madonna della Catena di San Silvestro al Quirinale

Século XIII

Ouro sobre azul

Poderemos recuar ao ano de 431, ao Concílio de Éfeso, para compreender a importância que a figura de Maria viria a adquirir na tradição cristã e, consequentemente, na sua representação artística. Neste concílio foi afirmada a legitimidade do título Theotokos — Mãe de Deus — contra a posição associada a Nestório, que distinguia de forma mais acentuada a maternidade de Maria enquanto mãe de Cristo-homem da sua relação com Cristo enquanto Deus. A decisão conciliar reforçou, assim, o lugar de Maria na teologia cristã e abriu caminho para uma extraordinária valorização da sua imagem no culto e nas artes.

A representação de Maria passaria progressivamente a obedecer a uma convenção cromática que associava o azul à dignidade, à pureza, à realeza celeste e à transcendência. Mais do que uma simples escolha estética, a cor assumia um valor simbólico e material. Maria deveria ser representada como Rainha do Céu e, por isso, vestida com cores dignas da sua condição.

O azul, contudo, não era apenas uma cor simbólica: era também uma matéria preciosa.

Um dos pigmentos azuis mais antigos conhecidos foi obtido a partir do lápis-lazúli, pedra semipreciosa proveniente de regiões da Ásia Central e utilizada desde a Antiguidade. A sua raridade, a dificuldade de transporte e o complexo processo de transformação da pedra em pigmento fizeram do azul um material de elevado valor. No Egipto antigo foram desenvolvidos outros pigmentos azuis, nomeadamente o chamado azul egípcio, um dos primeiros pigmentos sintéticos conhecidos, obtido através de um processo de fabricação específico.

Séculos mais tarde, na pintura europeia, o ultramarino natural, produzido a partir do lápis-lazúli, conservaria esse estatuto de matéria excepcionalmente valiosa. O pigmento chegava a atingir preços comparáveis aos de outros materiais preciosos e, em determinados contextos, era mesmo especificado nas encomendas como um material que deveria ser pago à parte pelo cliente.

É neste encontro entre símbolo e matéria que o azul ganha uma dimensão extraordinária. Não se tratava apenas de pintar uma superfície de azul; tratava-se de conferir à imagem uma matéria rara, cara e visualmente intensa. Quando aplicado ao manto de Maria, o pigmento não apenas identificava uma personagem: construía a sua dignidade.

O ouro desempenhava uma função semelhante. Desde a Antiguidade, a sua incorruptibilidade, raridade e brilho fizeram dele uma matéria privilegiada para representar o divino. Na arte cristã medieval, o ouro não procurava simplesmente imitar a realidade: procurava retirá-la da realidade quotidiana. O fundo dourado não representa necessariamente um espaço físico; representa uma outra dimensão, intemporal, celeste, onde o sagrado se manifesta.

O azul e o ouro tornam-se, assim, mais do que cores: tornam-se valores.

O azul veste o sagrado; o ouro ilumina-o.

Daí que a expressão “ouro sobre azul”, embora hoje utilizada para designar aquilo que é raro, precioso ou de elevada qualidade, possa ser entendida também como uma feliz síntese de uma longa tradição visual em que a matéria, a cor e o símbolo se encontram. O que vemos numa pintura não é apenas uma determinada tonalidade ou uma superfície brilhante: vemos uma escolha económica, técnica, simbólica e religiosa.

A História da Arte ensina-nos, afinal, que as cores também têm uma história. Foram extraídas da terra, transportadas por longas distâncias, preparadas por artesãos, disputadas por artistas e pagas por mecenas. Algumas eram tão valiosas que a sua utilização dizia tanto sobre o estatuto da personagem representada como sobre o poder económico de quem encomendava a obra.

Por isso, quando hoje admiramos um manto azul sobre um fundo dourado, talvez devamos olhar para além da beleza imediata da imagem. Ali estão a teologia, a economia, a técnica, o poder e a devoção.

E talvez seja precisamente por isso que, quando falamos de perfeição, continuemos a dizer: ouro sobre azul.

 

 

Variantes desta técnica foram utilizadas por diferentes civilizações — mesopotâmios, persas, gregos e romanos — que desenvolveram processos próprios de produção de pigmentos azuis. Na China antiga, foram igualmente desenvolvidos pigmentos azuis artificiais a partir de compostos minerais, alguns dos quais envolviam cobre e outros elementos metálicos.

A procura pelo azul não se limitava, porém, à pintura. Determinados minerais e compostos utilizados na produção de pigmentos eram também empregados na preparação de medicamentos e de elixires. Alguns desses compostos continham metais pesados, cuja toxicidade, hoje conhecida, terá provocado graves consequências para a saúde daqueles que os manipulavam ou ingeriam.

Independentemente da sua origem e do processo utilizado na sua produção, o azul permaneceu durante séculos um pigmento raro e dispendioso. A dificuldade da sua obtenção e o elevado preço da matéria-prima ajudam a compreender a associação progressiva desta cor à realeza, ao poder e ao sagrado. Não era apenas uma questão de preferência estética: usar azul significava, muitas vezes, possuir os recursos necessários para o adquirir.

É precisamente esta dimensão material que torna particularmente interessante a presença do azul na pintura religiosa. A cor não era apenas símbolo; era também matéria, trabalho e dinheiro. Quando um pintor aplicava um azul precioso no manto de uma figura sagrada, estava simultaneamente a construir uma imagem teológica e a revelar o estatuto económico da encomenda.

A tradição cristã acabaria por associar determinadas cores a valores e personagens específicos. O azul tornou-se progressivamente a cor da transcendência, do mistério divino e, sobretudo na iconografia mariana, da dignidade celestial.

O vermelho, pelo contrário, aproxima-se da condição humana. É a cor do sangue, da paixão, do sacrifício e do martírio. Nos ícones e na pintura religiosa, o vermelho pode representar simultaneamente a vida e a morte: o sangue derramado pelo mártir, mas também a força vital e o fogo do espírito.

O verde aproxima-se da Natureza. É a cor da vegetação, da renovação, da fertilidade e da abundância. A sua presença remete para o ciclo da vida e para a permanente capacidade regeneradora da Natureza.

O castanho é a cor da terra e, por extensão, da condição terrena. Associado à humildade, à pobreza e à renúncia dos bens mundanos, encontra particular expressão nas vestes de santos e religiosos que fizeram da pobreza uma forma de aproximação ao divino.

O branco aproxima-se da luz. É a cor da pureza, da paz, da inocência e da revelação. Na tradição cristã, a sua luminosidade sugere frequentemente uma realidade que se aproxima do divino.

Já o preto transporta consigo uma carga simbólica mais ambivalente: é a cor da ausência de luz, do luto, da morte, da penitência e, em determinados contextos, do pecado e daquilo que permanece oculto.

Assim, as cores não são apenas cores. Na pintura religiosa, constituem uma verdadeira linguagem. Antes mesmo de identificarmos uma personagem ou compreendermos uma narrativa, a cor fornece-nos pistas para a interpretação da imagem.

É por isso que olhar para uma pintura não significa apenas reconhecer aquilo que está diante dos nossos olhos. Olhar é começar a ver; ver é começar a interpretar.

E talvez seja neste ponto que regressamos ao nosso “ouro sobre azul”. O ouro e o azul não são simplesmente duas cores colocadas lado a lado. São duas matérias carregadas de significado: uma brilha, a outra aprofunda; uma remete para a luz, a outra para o mistério; ambas, pela sua raridade e pelo seu valor, foram capazes de transformar uma imagem numa manifestação de poder e de transcendência.

Na História da Arte, a cor também é uma forma de poder.

Texto: 1998 © Luís Carvalho Barreira